quinta-feira, 12 de julho de 2012

Passado e presente juntos para ensinar.


Qual será  melhor maneira de se ensinar história? Será realmente necessário ser cronologicamente exato, ou criar pontes entre o passado e o presente é a melhor maneira de se ensinar a disciplina.
Resumo:
 O pequeno texto aqui publicado na íntegra faz um breve resumo do ensino da disciplina História no Brasil. Desde seus primórdios, com os jesuítas que a utilizavam somente como um apêndice dos textos religiosos, até a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais na década de 1990. O ponto central do texto é a sua crítica à maneira cronológica de se ensinar história. Segundo o autor (ou autora) o ensino de história deve respeitar certas regras, sempre relacionando passado e presente para assim conseguir uma maior compreensão por parte dos alunos.
Boa leitura.

Passado e presente juntos para ensinar.
Os estudantes só aprendem a disciplina quando relacionam fatos, confrontam pontos de vista e consultam diversas fontes de pesquisa.
Em todos os tempos, o ensino de História foi permeado por escolhas políticas. No Brasil, após a proclamação da República, em 1889, a construção da identidade do país tornou-se prioridade. As elites da época tinham que garantir a construção de um Estado-nação, escolhendo para ser ensinado aos alunos conteúdos que exaltavam grandes “heróis” nacionais e feitos políticos gloriosos.
Desde então, poucas mudanças aconteceram em termos do quê e como ensinar nessa área. Para desenvolver a postura crítica da turma e dar aulas consistentes, é fundamental que o professor entende esse processo.
História é uma disciplina passível de múltiplas abordagens, que até há pouco não estavam na sala de aula, mas que hoje devem ser vistas com destaque. Por isso tornou-se, indispensável o trabalho com diversas fontes e o relacionamento do passado com o presente para que se entenda que contra fatos, há sim, argumentos. Tudo depende do olhar que se lança sobre eles.
Antes de a República ser instaurada, não se ensinava a disciplina. Os jesuítas, que chegaram em 1549 e fundaram as primeiras escolas, usavam os textos históricos com visões bíblicas somente para ensinar a ler e escrever. Os conteúdos não eram discutidos e existia apenas uma verdade histórica que nunca era contestada.
Em 1837, no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, História passou a ter presença obrigatória no currículo. O foco se dava na formação da civilização ocidental e o estudo do Brasil era apenas um de seus apêndices. A maioria dos professores daquela escola era formada por membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), criado no mesmo ano e adepto de uma visão política e romantizada da formação do país. Além de pautar o ensino pela questão da identidade de maneira ufanista, acreditava-se que esse era o momento em que os educadores deveriam formar moral e civicamente as crianças e os jovens, um dos objetivos da disciplina na época e que hoje esta ultrapassada teoricamente.
A metodologia usada era a tradicional, que tinham como princípio levar os alunos, a saber, datas e fatos na ponta da língua. Além da influência do historiador prussiano Leopold Van Ranke (1795-1886), que via a história como uma sucessão de fatos que não aceitavam interpretação. Segundo ele, pesquisadores e educadores deveriam se manter neutros e se ater a passar os conhecimentos sem discuti-los, usando para isso a exposição cronológica. Na hora de avaliar, provas orais e escritas eram inspiradas nos livros de catequese – com perguntas objetivas e respostas diretas.
Racionalidade X Patriotismo.
Essa postura na sala de aula só seria questionada no inicio do século XX, quando operários anarquistas de São Paulo e Porto Alegre, que lutavam por melhores condições de trabalho, criaram escolas inspiradas na pedagogia do espanhol Francisco Ferrer y Guardia (1849-1909). Neles, valorizavam-se a racionalidade e o cientificismo e não havia espaço para a exacerbação do patriotismo. A história era explicada por meio das lutas sociais e não pela construção do Estado. Novas fontes de aprendizagem, como visitas a museus e exposições, foram incorporadas com o objetivo de fazer o aluno pensar e não apenas decorar o conteúdo. Além disso, eram abordados temas como Revolução Francesa antes do estudo sobre a Antiguidade, quebrando assim um paradigma da linearidade.
As ideias revolucionárias, no entanto, foram pontuais e de pouca duração. As dez escolas com esse perfil foram fechadas com a pressão do governo Arthur Bernandes (1875-1955), que sufocou os movimentos trabalhistas.
O cenário ficou ainda mais complicado quando, em 1930, Getúlio Vargas, ferrenho nacionalista, subiu ao poder ficando nele quase ininterruptamente até 1954. Nesse meio tempo, surgiram os primeiros cursos superiores de História, que nasciam compactuando com a visão tradicionalista.
Os estudos de Jean Piaget (1896-1980) e Lev Vygotsky (1896-1934), contudo, começaram a ser divulgados, trazendo teorias que influenciariam a educação no geral, ao considerar as hipóteses prévias das crianças sobre os temas abordadas na escola. Sendo assim, as aulas puramente expositivas não funcionariam mais e as ideias de aprender a decorar começou a mostrar sinais de fragilidade.
A ditadura militar, nos anos 1960, faria com que as propostas mais avançadas demorassem a germinar. Em 1971, as autoridades substituíram História e Geografia por Estudos Sociais nas séries iniciais. Havia o medo de que o potencial político e crítico que o conhecimento mais profundo daquelas áreas poderia trazer, pudesse gerar reações revolucionárias. A fusão empobreceu os conteúdos de ambas as disciplinas, pois a ênfase agora estava no civismo.
As mudanças mais significativas, entretanto, começaram a se desenhar com a influência da Psicologia cognitiva, da Antropologia e da Sociologia. Essas duas últimas trouxeram, respectivamente, novos conteúdos e outras visões de fatos históricos (o que influenciaria a metodologia moderna de ensinar história. Além de ampliar o espectro de temas escolares, introduzindo, por exemplo, manifestações culturais locais) e de procurar diferentes versões, a metodologia também se caracterizava pela ênfase na relação entre passado e presente, pelo rompimento com a linearidade e pela consulta a fontes de diversas naturezas.
A partir dos anos 1980, cada vez mais professores foram tomando contato com essa nova forma de trabalhar. Hoje não se concebe o estudo histórico sem que o professor apresente diversas abordagens do mesmo tema, fato ou conceito. Iniciativa importante para que o aluno perceba que dependendo da visão e da intenção de quem conta a história, tudo muda.
Basta pensar no exemplo de como entender o processo de formação de um bairro: pode-se vê-lo sob a ótica dos trabalhadores da região e das relações estabelecidas pelos modos de produção, dos que estiveram no poder, dos grupos minoritários que habitam o local ou das manifestações culturais, entre outras.
Durante as aulas é impossível apresentar todas as maneiras de ver a história, mas é fundamental mostrar que ela não é constituída de uma única vertente (e que, até mesmo dentro de uma delas, pode haver várias interpretações). O professor deve favorecer o acesso a documentos oficiais, reportagens de jornais e revistas e a outras fontes. O contato com essa diversidade leva o estudante a ter uma visão ampla e integrada da história.
Além de textos, é recomendado que a turma consulte sites confiáveis, assista filmes e documentários, visite museus e entreviste os atores que vivenciaram os acontecimentos estudados. Tudo com planejamento e registro para que seja possível fazer uma avaliação minuciosa do projeto.
Ontem e hoje.
Estabelecer a correspondência entre passado e presente passou a ser um dos objetivos da disciplina, nos anos 1990, com a publicação do PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais). Isso ajudou na compreensão de que a escravidão é um processo. Isso deve ser feito de modo que o aluno entenda as transformações no decorrer do tempo. Esse também é uma forma de aproximar o conteúdo à vida do aluno. O que era impossível quando o conteúdo era transmitido cronologicamente.
Hoje o professor deve explorar as diferentes formas de lidar com a temporalidade e assim, estimular a reflexão. O resultado é que, em vez de decorar informações sem sentido, os jovens são estimulados a analisar o que aprendem e a memorizar conscientemente.
Desde a publicação dos PCN’s, temas como ética e pluralidade cultural passaram a permear o ensino da disciplina, indicando mais uma mudança: se nos tempos idos o objetivo era fomentar a ideia de identidade nacional, ancorada em deturpação e romantização de acontecimentos, hoje o intuito é explorar as diferentes identidades que existem dentro de uma nação, tornando os alunos sabedores da diversidade cultural de sua época.
Mitos Pedagógicos.
História é decoreba: a concepção de Educação que está por trás disso é a de que a aprendizagem se dá pela repetição da fala do professor ou do conteúdo do material didático. Grande equívoco.
Não é preciso memorizar: em reação à ideia anterior, alguns educadores defenderam que não era preciso decorar nada. Porém saber datas e nomes ajuda a relacionar os fatos. Memoriza significativamente é diferente de decoreba.
Uma lição de moral: a história nasce como disciplina escolar no Brasil em um contexto de criação da identidade nacional. Dai a ideia de que ela serviria para incutir princípios e valores nacionalistas.
Um fato depois do outro: não se sustenta a ideia de que para entender um período é preciso estudar o que veio antes dele. O aluno aprende com base em questões do presente, relacionando ao passado o que lhe é mais próximo.
Existe apenas uma verdade: de inspiração positivista, esse mito parte da ideia de que os documentos oficiais e os fatos políticos são os fieis guardadores da realidade. A ideia foi sendo derrubada ao longo do século XX, quando os historiadores, recorrendo a outras fontes documentais, descobriram diferentes interpretações sobre períodos e fatos.
Fonte: Revista Nova Escola. Ed Abril. Dezembro de 2008.

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