quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Fichamento: “Ensino de História: Fundamentos e Métodos” de Circe Maria F. Bittencourt

O grande debate é: A escola é uma receptora de conhecimento produzido na academia, ou ele também é produtora de conhecimeto?

Fichamento realizado por: William C.T. Rodrigues
(P. 33) .O que é disciplina Escolar?
Quando se analisa a trajetória da disciplina História, constata-se que esta faz parte dos “planos de estudos” de 1837 da primeira escola pública brasileira. Entretanto, acompanhando a trajetória da história no nível superior, constata-se que o primeiro curso de história surgiu apenas na década de 30 do séc. XX. Tal situação provoca algumas indagações: O que é uma disciplina escolar e quais são suas especificidades? Quais as relações entre disciplina escolar e disciplina acadêmica? Como os estudos históricos se constituíram, para os níveis secundário e primário, ao longo da educação escolar? Qual tem sido a participação dos professores na construção da disciplina de história nas salas de aula?   (...)
(P. 34) A história e outras tantas disciplinas escolares tem feito parte do cotidiano de milhares de alunos e professores de tal forma que acabamos por achar natural essa organização curricular e essa maneira de “ser da escola”.
Existem as “matérias” e os respectivos professores encarregados de ministrá-las, obedecendo à determinada carga horária no decorrer de um tempo específico chamado “ano letivo”. Os professores são classificados por grupos: disciplinas cientificas, humanas, exatas, etc. Além de outra divisão entre os docentes: os especialistas das disciplinas e os polivalentes das séries iniciais do ensino fundamental. Diante desse quadro, este capítulo procura entender o que é disciplina escolar e os saberes por ela produzido.
A história e os demais escolares fazem parte de um sistema educacional que mantém especificidades no processo de constituição de saberes ou de determinado conhecimento- o conhecimento escolar.
(P. 35) .1 Polêmicas sobre a concepção de disciplina escolar.
Responder à pergunta “o que é disciplina escolar?” não é simples. Os debates mais significativos em torno dessa concepção tem sido realizado por pesquisadores franceses e ingleses, com divergências importantes e significativas entre eles.
Existem os defensores da idéia de disciplina como “transposição didática” e os que concebem disciplina como um campo de “conhecimento autônomo”.
1.1. Uma Transposição Didática.
(P. 36) Para determinados educadores, franceses e ingleses, as disciplina escolares decorrem das ciências eruditas de referência, dependentes da produção das universidades, e servem como instrumento de “vulgarização” do conhecimento produzido por um grupo de cientistas.
O pesquisador francês Yves Chevellard, passou a designar tal concepção como “transposição didática”. Ele entende ser a escola parte de um sistema no qual o conhecimento por ela reproduzido se organiza pela mediação da “noosfera ”, que corresponde ao conjunto de agentes sociais externos a sala de aula – Inspetores, autores de livros didáticos, técnicos educacionais, famílias. Esses agentes garantem à escola o fluxo e as adaptações dos saberes provenientes das ciências produzidas pela academia.
Essa abordagem considera a disciplina escolar dependente do conhecimento erudito ou cientifico. Também se consolida, por essa concepção uma hierarquia de conhecimentos, encontrando-se a disciplina escolar em uma escala inferior, como saber de segunda classe.
(P. 37) No que refere aos conteúdos e métodos de ensino e aprendizagem, entende-se que os conteúdos escolares provem direta e exclusivamente da produção cientifica e os métodos decorrem apenas de técnicas pedagógicas, que transforma-se em didáticas.
Segundo esse ponto de vista, a escola é o lugar de recepção e de reprodução do conhecimento externo. E a figura do professor aparece como um intermediário desse processo de reprodução, cujo grau de eficiência é medido pela capacidade de adaptação do conhecimento cientifico ao meio escolar.
1.2. Disciplina escolar como entidade específica.
Para pesquisadores como, o inglês Ivor Goodson e o francês André Chervel, a disciplina escolar não se constitui pela simples “transposição didática” do saber erudito, mas, antes, por intermédio de uma teia de outros conhecimentos.
Para os autores que se opõem à concepção de “transposição didática”, um ponto inicial é o fato de que aquela abordagem acentua a hierarquização de saberes como base para a constituição de conhecimentos para a sociedade.
(P. 38) Além disso, afirmam que essa hierarquização do conhecimento tem conotações sociais, como instrumento de poder de determinados setores da sociedade.
André Chervel, ao defender a disciplina escolar como entidade relativamente autônoma, considera as relações de poder próprias da escola.
É preciso deslocar o acento das influências exteriores a escola, inserindo o conhecimento por ela produzido no interior de uma cultura escolar.
(P. 39) Chervel concebe a escola como uma instituição que, embora obedeça a uma lógica, deve ser considerada como lugar de produção de um saber próprio. As disciplinas escolares devem ser analisadas como parte integrante da cultura escolar. Conteúdos e métodos, não podem ser entendidos separadamente, e os conteúdos escolares não são vulgarizações ou mera adaptações de um conhecimento produzido em “outro lugar”.
A seleção dos conteúdos escolares, por conseguinte, depende de um complexo sistema de valores e de interesses próprios da escola e do papel por ela desempenhado na sociedade letrada e moderna.
(P. 40) 1.3 Constituintes das disciplinas escolares.
Para entender as disciplinas escolares, é preciso situá-las em um processo dinâmico de produção. Segundo Chervel, as disciplinas escolares constituíram-se efetivamente a partir de 1910. A constituição das disciplinas foi resultado de disputas entre os conhecimentos que deveriam fazer parte do currículo escolar.
Desde o fim do séc. XIX se discutia sobre a necessidade de manter um currículo humanístico organizado pelo estudo das línguas e da oratória. Que eram entendidas como fundamentais para a formação das elites.
(P. 41) Com o desenvolvimento da industrialização, os conhecimentos das áreas denominadas exatas, passaram a ser consideradas importantes e disputavam espaço com as áreas das “humanidades clássicas”. Foi importante nesse momento, estabelecer as finalidades de cada uma das disciplinas, explicitar os conteúdos selecionados para serem ensinados e definir os métodos que garantissem tanto a apreensão de tais conteúdos como a avaliação da aprendizagem.
As finalidades de uma disciplina escolar, cujo estabelecimento é essencial para garantir sua permanência no currículo, caracterizam-se pela articulação entre os objetivos instrucionais mais específicos e os objetivos educacionais mais gerais.
(P. 42) As finalidades de uma disciplina tendem sempre a mudanças, de modo que atendam diferentes públicos escolares e respondam às suas necessidades sociais e culturais inseridas no conjunto da sociedade.
(P. 43) Outro constituinte fundamental da disciplina escolar é o conteúdo explicito. Os conteúdos explícitos são geralmente organizados por temas específicos e apresentados em planos sucessivos, conforme os níveis de escolarização e devem estar em sintonia com os objetivos educacionais e instrucionais.
Os conteúdos explícitos articulam-se intimamente com os métodos de ensino e de aprendizagem. Tais conteúdos são apresentados ao público por intermédio de diferentes métodos, indo da aula expositiva até o uso dos livros didáticos ou da informática. O método é importante por ser um dos elementos que estão diretamente vinculados ao conteúdo explícito e aos objetivos das disciplinas.
(P. 44) E por fim, temos a avaliação, essencial para se ter controle sobre o que é ensinado ou aprendido pelo aluno. Na avaliação reside o maior poder do professor.
.2. Disciplina escolar e produção do conhecimento.
2.1 Disciplina escolar ou matéria escolar.
(P. 45) Ivor Goodson entende a disciplina como uma forma de conhecimento oriunda e característica da tradição acadêmica e para o caso das escolas primárias e secundárias utiliza-se o termo matéria escolar.
Goodson explica que muitas matérias escolares não apresentam as mesmas estruturas das disciplinas acadêmicas e não se utilizam de conceitos e metodologias semelhantes. Ademais, argumentando que muito do que se trabalha na escola nem tem uma disciplina base ou ciência referência, pois, constituindo-se numa comunidade autônoma recebe múltiplas interferências de professores, administradores da escola ou da sociedade.
(P. 47) Podem-se identificar diferenças entre as disciplinas acadêmicas e as escolares, embora elas tenham relações entre si. Uma das diferenças importantes diz respeito a seus objetivos, que evidentemente não são os mesmos. A disciplina acadêmica visa formar um profissional. Já a matéria escolar visa formar um cidadão comum que necessita de ferramentas intelectuais variadas para compreender o mundo físico e social em que vive.
(P. 48) 2.2. Disciplina escolar e conhecimento histórico.
O historiador francês Henri Moniot, ao estudar a história enquanto disciplina escolar conclui que seu ensino, no fim do séc. XIX, assegurou a existência da história universitária.
A divisão da história em grandes períodos (Antiguidade, média, moderna e contemporânea), criada para organizar os estudos escolares acabou por definir as divisões das disciplinas históricas universitárias.
(P. 49) Essa organização das disciplinas é uma das evidencias que permitem refletir sobre as relações entre o conhecimento acadêmico e o escolar
Modificar o currículo do ensino fundamental e médio, como quer as recentes propostas do ensino temático, implica mudanças no currículo de nível superior.
A história escolar tem um perfil próprio, mas há um intercâmbio de legitimações entre as duas entidades específicas
A articulação entre as disciplinas escolares e as disciplinas acadêmicas é, portanto, complexa e não pode ser entendida como um processo mecânico e linear, pelo qual o que se produz enquanto conhecimento histórico acadêmico seja necessariamente transmitido e incorporado pela escola.
2.3. Professores e disciplina escolares.
(P. 50) O professor é quem transforma o saber a ser ensinado em saber aprendido, ação fundamental no processo de produção do conhecimento. Conteúdos, métodos e avaliações constroem-se nesse cotidiano e nas relações entre professores e alunos.
(P. 51) “Dar aula” é uma ação complexa que exige o domínio de vários saberes característicos e heterogêneos. De acordo com o canadense Maurice Tardif, e a brasileira Ana Maria Monteiro, os professores mobilizam em seu oficio os saberes das disciplinas, os saberes curriculares, os saberes da formação profissional e os saberes da experiência. A pluralidade desses saberes corresponde a um trabalho profissional que se define como “saber docente”.

Leia Também:

Bibliografia:
BITTENCOURT; Circe Maria F: “Ensino de História: Fundamentos e Métodos” São Paulo. Ed Cortez, 2004. Pág 33-55.

9 comentários:

  1. Cara, te amo HAUAHAUHUAUAH :D

    ResponderExcluir
  2. queria saber algo sobre mudanças e permanencias nos metodos da Historia Esolar...falows...

    ResponderExcluir
  3. Estou preparando algumas resenhas e fichamentos sobre o livro organizado por Leandro Karnal chamado "História na sala de aula" conceitos, práticas e propostas, bibliografia obrigatória nos concursos para professor.
    Pretendo a partir do mês que vem analisar e postar cada um dos capítulos separadamente.
    Obrigado e continue acessando o blog isto me deixa muito feliz

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi William, tudo bem? Gostei muito desse fichamento, está me ajudando muito em meus estudos.
      Se possível vc poderia disponibilizar esta resenha do livro " História na sala de aula" de Leandro Karnal? Estou precisando muito. Desde já agradeço.

      Excluir
  4. Alguém tem o livro da Circe em .pdf?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também queria

      Excluir
    2. Olha vc acabou de me socorrer, te amo , Deus te Abençoe sempre.

      foi um grande prazer. bjs????????????????????????

      Excluir
  5. JESUÍNA DOS SANTOS AZEVEDO17 de abril de 2012 16:57

    WILL, OBRIGADA POR DISPONIBILIZAR CONTEÚDOS NECESSÁRIOS AOS ESTUDOS DE QUEM PROCURA SEMPRE MAIS SABER E CONHECIMENTO. QUE DEUS CONTINUE TE ILUMINANDO NESTA CONSTRUÇÃO DE UM SABER DO QUAL SOMOS PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS. UM ABRAÇO E TUDO DE BOM!!!

    ResponderExcluir