sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Homem Cordial de Sérgio Buarque de Holanda.

Sérgio Buarque de Holanda foi um dos maiores "explicadores" do Brasil.
Sérgio Buarque de Holanda, paulista da capital, nasceu em 11 de julho de 1902 e veio a falecer no dia 24 de abril de 1982 então com 79 anos. Em 1921 mudou-se para o Rio de Janeiro onde matriculou-se na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, atual UFRJ, onde graduou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1925.  Ao longo da década de 1920 representou o modernismo paulista junto a capital carioca.
Durante dois anos(1929-1930) foi correspondente dos Diarios Associados em Berlim. De volta ao Brasil continuou seu trabalho de jornalista e em 1936 assumiu o cargo de professor assistente da Universidade do Distrito Federal. Neste mesmo ano casou-se com Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim, com quem teve sete filhos, entre eles Chico Buarque.  (...)
Ainda em 1936 publicou seu ensaio Raízes do Brasil.
Após a extinção da Universidade Federal da Capital 1939, Sérgio Buarque passou uma longa temporada nos EUA, regressando somente em 1946, fixando residência em São Paulo para assumir a direção do Museu Paulista, posição que ocuparia por quase 10 anos. Em 1958, assumiu a cadeira de História da Civilização Brasileira, agora na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. No mesmo ano ingressou na Academia Paulista de Letras. Entre 1963 e 1967 foi professor convidado no Chile e nos EUA, mas em 1969, num protesto contra a aposentadoria compulsória de colegas da Universidade de São Paulo pelo então vigente regime militar, decidiu encerrar a sua carreira docente. Apesar disso nunca parou de escrever, permanecendo intelectualmente ativo até 1982 quando veio a falecer. Dois anos antes de sua morte participou da cerimônia de fundação do PT.
Contexto Histórico.
Mundo:
Hitler ascende ao cargo de chanceler na Alemanha.
Tem início a Segunda Guerra Mundial 1939.
Nos Estados Unidos,Franklin Roosevelt dá início ao New Deal, o plano de recuperação econômica após a quebra da bolsa de Nova York, em 1929.
Os movimentos totalitários começam a eclodir também em outros países europeus, com Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Francisco Franco na Espanha e Stálin na União Soviética, além de Hitler na Alemanha.
Brasil:
Sérgio Buarque de Holanda é extremamente influenciado pela semana de arte moderna.
No Brasil, ocorre a Revolução de 30, movimento que chega ao poder encabeçado pelo político gaúcho Getúlio Vargas.
Em 1932 inicia a Revolução Constitucionalista, organizada pelo estado de São Paulo, que exige, entre outros pontos, a constitucionalização do novo regime. O movimento é derrotado, mas força a convocação da Assembléia Constituinte em 1933. Em 1934 seria promulgada a nova Constituição.
Chega ao fim a política do café-com-leite e tem início o Estado Novo, em novembro de 1937. Ao longo do restante da década não seriam realizadas eleições no país (as eleições só voltariam com o fim do Estado Novo, em 1945).
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(TEXTO Nº 29)
HOLANDA; Sérgio Buarque de: “Raízes do Brasil”. SP. Cia das letras, 2002. Pág.141-151.
O Homem Cordial:
Família X Estado:
Diferente do que muitos pensam o Estado não é uma ampliação da família, não é sua evolução. A família e o Estado são antagônicos.
O Estado apenas surge graças à transgressão da ordem familiar, quando triunfa o geral sobre o particular e somente ai a ordem familiar é abolida.
Pedagogia moderna e as virtudes anti-familiares:
Sérgio Buarque de Holanda propõe a abolição da velha ordem patriarcal e suas relações sociais baseadas na idéia de pai autoritário, mãe submissa e filhos amedrontados.
Segundo ele, essa maneira de criação amarra o desenvolvimento da criança e cria um adulto com dificuldade de iniciativa, de mudar a ordem social, de desenvolvimento intelectual.
Essa criação dura da família patriarcal prende o jovem a uma estrutura conservadora.
E a luta contra essa criação deve ser a bandeira da moderna pedagogia. Criar homens contestadores, críticos e de opinião própria. Separando família de Estado.
Patrimonialismo:
Graças à essa forma de criação do homem brasileiro, é de extrema dificuldade a ele entender onde acaba o privado e começa o público.
O funcionário patrimonial utiliza-se então do público para interesses particulares.
É por isso que Sérgio Buarque busca na moderna pedagogia a saída para essa questão.
O homem cordial:
A hospitalidade, a generosidade, etc são virtudes que representam o caráter do povo brasileiro.
Mas segundo Sérgio Buarque toda essas boas maneiras não significam civilidade e sim a expressão de um grande fundo emotivo.
Para o homem cordial a vida em sociedade é a libertação do pavor que ele sente por ele mesmo.
Para que o homem cordial viva em sociedade ele precisa estabelecer laços de intimidade e não somente a manifestação de respeito mútuo.
Um exemplo disso, é que no Brasil se abole o sobrenome para assim não criar barreiras entre famílias diferentes.
Essa emotividade e tentativa de estabelecer intimidade espalha-se por todos os âmbitos da vida social, até mesmo onde não deveria, como nos negócios e nos ritos religiosos que se afrouxam e se humanizam.
Esse é o motivo, pelo qual nenhuma, elaboração política no Brasil deve se basear somente na razão. Ela deve sempre apelar para a emoção e os sentimentos.
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(TEXTO Nº 30) CARVALHO; Marcus Vinicius Corrêa: “Outros Lados Sérgio Buarque de Holanda crítica literária, história e política (1920-1940)”.Tese de doutorado publicada pela UNICAMP. Pág 145-175.
Raízes do Brasil.
A publicação:
A tese de doutorada de Marcus Vinicius Corrêa Carvalho, tem como objetivo inicial demonstrar em qual ambiente editorial foi lançado o livro “Raízes do Brasil” e depois nos....(completar).
Segundo Carvalho, Sérgio Buarque foi para a Alemanha já com um projeto em mente, que tinha como objetivo trabalhar com a idéia de formação nacional ou mesmo de história brasileira. E morando na Europa ele teve a oportunidade de visualizar o “seu próprio país como um todo” indo muito além dos regionalismos.
Nesta primeira parte o autor faz uma análise histórica sobre as relações e os bastidores que envolveram a produção do livro Raízes do Brasil pela gráfica e livraria de José Olimpio Pereira Filho.
O livro raízes do Brasil foi lançado em 1936 pela coleção Documentos Brasileiros editada por Gilberto Freyre e que tinha como principal objetivo concorrer com a coleção Brasiliana da Cia. Editora Nacional. Assim que foi publicado Freyre achou o livro de Sérgio Buarque a coisa mais linda em editoração no Brasil.
Entretanto, algum tempo depois do lançamento do livro, Olimpio confessou a Jorge Amado suas desilusões com o empreendimento editorial, este por sua vez o aconselhou a editar livros mais populares e de baixo custo. Jorge Amado criticou a forma como o livro de Sérgio Buarque foi concebido, o achando sóbrio demais.
A editora de Olimpio era estruturada pela articulação de uma complexa rede de amizades e disputas, sendo esta as relações que permearam a publicação de Raízes dó Brasil e a profissionalização de Sérgio Buarque como escritor. Esse fato é importante para se entender que a dificuldade da difusão do Raízes do Brasil foi causada em especial por Jorge Amado que acreditava que esse livro não ultrapassaria os círculos intelectuais ficando preso a eles.
Análise de Marcus V. C. Carvalho, sobre a obra
Pode se interpretar o surgimento do  Raízes do Brasil como um tentativa de se equacionar as questões que surgiram entre os meios intelectuais da qual Buarque também fazia parte. Sendo apenas um esforço de interpretar a especificidade “americanista”, buscando “originalidade nacional” para se entender a os elementos constituintes da” formação nacional”.
Sérgio Buarque de Holanda Buscava uma interpretação da tradição nacional, contrariando a idéia de alguns intelectuais, como Graça Aranha e Ronald de Carvalho, que acreditavam que a formação do Brasil aconteceu graças a minúsculos grupos intelectuais.
Segundo Buarque seu livro pode ser interpretado como um “estudo compreensivo”. Onde segundo ele o Brasil foi o único país, no mundo, bem sucedido na transplantação da cultura européia para os trópicos, a única “civilização nos trópicos”. Isso influenciou as formas de se viver, de se relacionar e de visão do mundo dos brasileiros.
Esse fato criou a idéia de incompatibilidade entre essas “formas culturais européias” e o calor tropical, que desde os primórdios da colonização portuguesa até Sérgio Buarque acreditava-se que nós “somos desterrados em nossa terra”. Nunca nos adaptaríamos ao Brasil e sempre nos sentíramos estrangeiros.
Além da problemática entre “imitação” e “originalidade”. Onde começa e onde acaba a cultura européia no Brasil, e onde começa e onde a nossa própria cultura da qual nos orgulhamos? Então é necessário que se estabeleça as fronteiras entre uma e outra, para a partir daí investigar e alimentar nossa própria cultura.
 Sérgio Buarque buscava uma interpretação da tradição nacional propriamente brasileira, para assim acabar com a idéia de que nós brasileiros somos “desterrados em nossa própria terra”, reforçando assim o sentido de pertencimento, do brasileiro a uma tradição e uma cultura que seja 100% nossa.
Segundo Carvalho, há elementos que comprovem a influência de Wilhelm Dilthey sobre Holanda, no entendo ele não faz nenhuma referência direta a Dilthey no Raízes do Brasil. Suas primeiras referências a ele aparecerão somente na década de 50.
Em Raízes do Brasil há três núcleos conceituais: Tradição, Cultura e Vida que Holanda utiliza para estruturar seu “estudo compreensivo”.
Esses núcleos se apresentam bem claros no início do Raízes do Brasil, quando o autor crítica a tentativa de importar “sistemas de outros países modernos”. Já que Sérgio Buarque acredita um cultura só absorve outra quando encontra uma possibilidade de ajuste aos seus “quadros de vida”
Tradição:
Sérgio Buarque apresenta a “tradição” como um fio temporal a ser “atualizado” mediante os “quadros de vida”. Uma tradição só é atualizada quando é entendida pelas próximas gerações, fato este, que não é controlado e ocorre de forma espontânea.
Tradição Ibérica.
Os ibéricos apesar de sua antipatia pelo “culto ao trabalho” e ao “culto pela atividade utilitária”, tinham uma pequena capacidade de organização social.
E essa ausência de amor ao trabalho era compensada pelas vinculações emotivas no recinto doméstico ou entre amigos. Resultando no fato de que a obediência seria a suprema virtude e o único principio político verdadeiramente relevante.
O Brasil é fortemente influenciado por essa tradição.
A colonização portuguesa foi feita no Brasil por homens aventureiros, que ignoravam fronteiras e “colhiam o fruto sem plantar, a árvore” e não por homens trabalhadores.
Esse tipo de colonização foi decisivo para a vida nacional.
Esses aventureiros aclimataram-se rapidamente, aprendendo muitas técnicas indígenas.
Diferentemente dos espanhóis que não conseguiram se ambientar na América.
Essa facilidade de ambientar, segundo Buarque, vem do sangue português que já era um sangue mestiço, esse fato foi determinante para o não alastramento da idéia de orgulho racial entre os portugueses. Sendo este também o motivo das instituições escravistas no Brasil, segundo Sérgio Buarque, serem tão brandas e moles permitindo a entrada da influência negra dentro de suas residências.
Portanto para Sérgio Buarque a “´plasticidade social” portuguesa implicava em uma somatória do personalismo, do espírito aventureiro e da mestiçagem estabelecendo um embasamento psicofísico para formular sua noção de formas de vida.
Ruralismo.
O ruralismo é mais um nível da persistência cultural da forma de vida portuguesa no Brasil.
A nostalgia dos laços afetivos deixou vestígios patentes em nossa sociedade, em nossa política e em todas as nossas atividades.
Devido à falta de trabalho manual livre e com uma classe média incipiente, os antigos senhores rurais assumiram o domínio das funções públicas, estendendo seu domínio rural, patriarcal e doméstico para as instituições estatais.
A noção de homem cordial foi emprestada de uma Carta de Ribeiro Couto ao mexicano Alfonso Reyes, que sintetizava a visão de mundo personalista e da forma de vida ruralista.
Para o homem cordial é quase impossível participar das formas ritualistas do convívio social, como a atitude polida.
O homem cordial apenas utiliza-se da polidez como uma máscara para manter sua supremacia frente o social.
Sérgio Buarque criticava os Positivistas e os liberais democráticos, pois, estes acreditavam que a democracia no Brasil era um lamentável mal entendido. E para ele a abolição em 1888, representou o fim do predomínio agrário e a Proclamação da República logo em seguida tentou responder aos anseios desse fato. Esses acontecimentos seriam os mais revolucionários de nossa história nacional, apesar de lento deixa-se para traz essa tradição ibérica no Brasil e começa a se formar uma cultura própria no estilo americano.
Os traços ibéricos ainda não haviam sido abolidos pelas próprias insuficiências do americanismo.
Um ponto chave para o afastamento entre a tradição ibérica é a tentativa de respostas e soluções espontâneas e americanistas, sem a utilização de métodos europeus.
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Sites Pesquisados.
http://www.unicamp.br/siarq/sbh/
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/brasil/2002/07/03/001.htm
Bibliografia.
HOLANDA; Sérgio Buarque de: “Raízes do Brasil”. SP. Cia das letras, 2002. Pág.141-151.

CARVALHO; Marcus Vinicius Corrêa: “Outros Lados Sérgio Buarque de Holanda crítica literária, história e política (1920-1940)”.Tese de doutorado publicada pela UN

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